• Malu Simões

Quantos corações partidos cabem dentro de um coração?



Já vi gente que coleciona selos, que coleciona rótulos de cervejas importadas, sapatos de marca ou moedas antigas. Mulheres de 30 colecionam corações partidos. Quantas desilusões amorosas é possível (sobre) viver? Pausa dramática.


A gente cresce imaginando mil coisas: o trabalho dos sonhos, a família unida em volta da mesa nas noites de Natal, um cachorro chamado Totó, o namorado de novela, um marido compreensivo, dinheiro guardado na poupança e o projeto de ter um casal de filhos.

Na adolescência isso tudo ainda é muito possível, até que você começa a gostar do carinha da sua sala, que por sua vez gosta da menina da primeira fileira. Você sofre cada vez que é chamada de quatro olhos (porque foi obrigada a começar usar óculos de grau na quinta-série). O castelo desmorona com a rapidez de um Tsunami.


Mesmo assim insiste com o espelho (que é cruel nessa idade) e acaba arrumando um namoradinho que promete ficar com você até começar a faculdade. Na primeira festa do “bixo” ele te abandona. O mundo caiu mais uma vez – com a mesma intensidade de um furacão. Mas tudo bem, porque você está fazendo o curso que sempre quis, até que descobre que a área é complicada demais pra abraçar seus sonhos. Outra martelada da vida, com a força de um lutador de MMA.

E assim a vida segue. Você conhece um homem, se apaixona, sofre, se decepciona, foca no trabalho, se decepciona, conhece outro homem, escreve cartas de amor, rasga as cartas de amor, chora, tenta outro cargo na empresa, volta pro mesmo cargo na empresa, conhece outro cara que te escreve cartas de amor, se empolga no trabalho, o rapaz volta atrás com as cartas de amor e você mais uma vez leva um NÃO da sua chefe.


Quantas vezes mais é possível partir um coração em dois? Na fase dos 30 anos essas duas metades já estão aos pedaços. Balzaquianas sabem, como ninguém, colar as migalhas e tentar mais uma vez e sempre, seja onde for (e com quem for). Mas quantos cacos mais sobrarão?

Quando tinha meus 20 e poucos anos eu li um livro do Paulo Coelho (sem julgamentos) que deixava a seguinte mensagem: só se vive um grande amor uma vez na vida. Se isso fosse verdade, poderia dizer que não é possível criar coleções somente com um coração partido, porque minha amiga: eu tenho muitos. Cada um tem um nome, uma data e uma situação que nem mesmo um elefante seria capaz de lembrar tantos detalhes. Fato é que um amor fracassado deixa mais marcas do que um amor bem vivido. Nem preciso falar que acontece a mesma coisa com as desilusões.

Aquela rasteira da vida, aquela mensagem ignorada, aquela mentira ouvida, aquela gargalhada debochada, aquele homem sacana, são muito mais vivos na sua vida do que todos os “sins” que já recebeu. E é por isso que é tão maravilhoso fazer parte desse grupo de colecionadores na casa dos 30 anos.


Porque a gente já sabe quais peças faltam pra coleção e quais já estão repetidas pra cometer a burrada de investir em algo que já teve/ viveu/ sentiu. Para muitas pessoas isso se chama trauma. Eu, com todo o otimismo que ainda me resta, chamo de experiência, sabedoria. Eu chamo isso de vida. Os tais “ciclos”. Malditos!


Quantos corações partidos cabem dentro de um coração? Tantos outros mais é a resposta.


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Conheça a autora

A espontaneidade sempre foi seu guia e a ideia de mostrar grandes comunicadores em papeis mais soltos foi seu maior diferencial durante a trajetória como repórter de tv. Ao lado de grandes apresentadores, Malu Simões teve a oportunidade de mostrar sua irreverência e construir conteúdos diferentes para as mídias digitais.

 

 

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