• Malu Simões

O abismo entre a primeira e a última conversa


Na nossa primeira conversa você falou pouco e eu falei muito, como de costume. Mas a gente se olhou.

Na nossa primeira conversa eu fiz muitas perguntas e você respondeu todas com a voz tímida. Minhas perguntas dançavam sobre o constrangimento do momento de querer conhecer, de querer viver, de querer entender quem é você.

Na nossa primeira conversa foram poucas as letras utilizadas. Teve mais beijo do que palavra, teve mais curiosidade do que certeza.


Na nossa segunda conversa eu esperei muito mais, tive o de menos. Até por isso tentei a terceira conversa.


A terceira conversa foi a seguinte conversa: vou te ver.

Na terceira conversa teve mais cheiro do que beijo. Teve contato, sintonia, afinidade.


Na quarta conversa o nosso diálogo abriu. Transpareci minha sinceridade, minha autenticidade, o que eu queria de você. Talvez na quarta conversa, você já tivesse percebido como eu era e pra onde eu ia.

Foi na quarta conversa que você lembrou o porquê adiou a primeira conversa. Foi na quinta conversa que ficou nítido que a primeira conversa seria somente com aquela que seguiria firme em um relacionamento.

Foram cinco, seis ou até mesmo sete conversas pra que o silêncio viesse. Não teve mais conversa depois disso. Teve um hiato de vogais e consoantes, sem sonoridade, sem discotecagem, sem luz pra brilhar.

Chegou a oitava conversa pra ser o número par definitivo. Seria nove ou dez, mas seriam certas as próximas conversas, como se firmássemos o compromisso de conversar sempre.

Não lembro de ter tido 11, 12, 13, 19 conversas. Na vigésima conversa eu desejei Feliz Natal e Feliz Ano Novo. Seguimos um ano de muitas conversas. Era preciso entender quantas mais haveria pra que eu pudesse me fazer enxergar o que estava vivendo.

Nas inúmeras conversas tivemos altas conversas. Baixas também, assim como as temporadas que iam e voltavam trazendo a necessidade de falar. E falávamos. Falávamos do que não precisa falar e daquilo que era fundamental falar. Eram conversas extensas, oras produtivas, oras cansativas. Mas eram as tais conversas.

Na trigésima conversa definimos a personalidade de cada um e ali se fez fiel a necessidade da linguagem. A conversa que limita o limite de cada um, assim como personalidade, qualidade e defeitos.

Foram muitos os pingos nos “is” em meados de tantas conversas. Seria possível ter menos conversas? Era hora de falar menos, ouvir menos, escutar menos, viver mais. Já era cansativo conversar.

Trocamos os termos, e o c de conversa pelo c de cobrança e chegou a última conversa.

Na nossa última conversa não foi uma conversa. O tom de voz era alto, a estridência visível e a vontade de ter a última conversa era completamente visível. Na nossa última conversa eu falei. Mas diferente da primeira, eu mais ouvi do que falei.

Na nossa última conversa foi selado que seria a última conversa, o que encerra um ciclo de infinitas possibilidades, porque sem conversa, não há caminho.

Na nossa última conversa a porta se fechou e eu, faladeira que só, fiquei muda no fim da nossa última conversa.

Na nossa última conversa eu acreditei que seria a última conversa.

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Conheça a autora

A espontaneidade sempre foi seu guia e a ideia de mostrar grandes comunicadores em papeis mais soltos foi seu maior diferencial durante a trajetória como repórter de tv. Ao lado de grandes apresentadores, Malu Simões teve a oportunidade de mostrar sua irreverência e construir conteúdos diferentes para as mídias digitais.

 

 

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