• Malu Simões

Minha dose diária de café em forma de amor


Eu nunca fui fã de café. Na verdade, eu nunca soube se gostava de café e, daí, afirmava que não gostava.


Durante todo o tempo em que morei com minha família, a rotina do café era diária. Logo pela manhã, minha mãe coava o café antes mesmo das 6 horas da manhã. O cheiro entrava na casa e esse era o momento de despertar. O café da minha mãe é forte, é sentido de longe e se bebe sem adoçar.


Meu pai toma esse mesmo café com um punhado de açúcar. O gosto é diferente. Eu nunca tomei nem um e nem outro, mas sabia que as raízes do café estavam na minha família.


A tarde também era hora, quando minha mãe coava o café para dar aquela pausa no dia. O café ficava em cima da bancada da cozinha, na garrafa térmica e era o ponto de encontro do meu pai e da minha mãe. O café era a união da família, no caso dos adultos. Eu e meu irmão não estávamos inseridos no contexto.


Eu não gostava de café, como disse.


Me recordo que, por muitas vezes, minha mãe tentou me fazer gostar. Ela me servia o que chamávamos de sopa de bolacha: o biscoito de maisena, mergulhado no leite, dentro de um prato fundo. Algumas vezes, sem me avisar, ela colocava café com leite ao invés do leite puro. Eu detestava. Nem colocava a colher na boca, mas já detestava. Isso é possível?


Quando completei 19 anos comecei meu primeiro estágio e minha primeira incumbência no trabalho, por deboche do destino, era “passar” o café para as reuniões. Eu não sabia a dose de água e nem do pó, mas me ensinaram e eu passei a coar café 3 vezes ao dia: de manhã, depois do almoço e a tarde.


Nessa fase eu me aventurei a experimentar o café. Não por gosto, mas por necessidade. Era meu primeiro trabalho, ficava de 6 a 8 horas por dia dentro de um escritório. O café desperta, a cafeína acorda e eu bebia por isso. E também eu estaria inserida no grupo ao beber café: todos da equipe se juntavam na hora do cafezinho e, assim como em casa, o café unia.


Meu café era igual do meu pai: coado e com muito açúcar. Eu não havia provado sem açúcar, mas tinha certeza de que meu café ideal era adoçado.


Já no meu segundo emprego como jornalista, ingressei em uma emissora de televisão onde tinha o café coado, mas tinha o café de máquina. Eu podia escolher entre cappuccino, café com leite, café com chocolate ou café duplo. Eram tantas as opções que eu me maravilhava e adentrei a um universo de múltiplas escolhas. Passei 6 anos me aventurando nessa máquina de café e pude comprovar que meu café predileto era aquele bem disfarçado de seu gosto natural: com leite ou chocolate.


Ou seja: eu ainda não gostava de café ou ainda não tinha aprendido a apreciar o café.


A ironia do destino veio lá pelo ano de 2012, quanto eu tinha 27 anos. Me mudei para Londres onde trabalhei em um restaurante como atendente. Em meio ao treinamento, eu tive que aprender a mexer em uma máquina profissional de café expresso. Eu teria que entender o paladar de um barista para, então, poder fazer e servir café aos clientes britânicos.


A primeira pergunta durante o treinamento foi: você gosta de café? E eu respondi que não. Nesse momento, o que seria um acompanhamento de 1 hora, se transformou em 2. Eu precisava entender o grão, o processo de moer, de prensar e, assim, degustar através das papilas gustativas onde o café se tornaria um produto de apreço.


O café, assim como o vinho, tem uma técnica para salivar e engolir. Eu precisaria engolir a bebida que eu menos gostava na vida, demonstrar aptidão e apreço e assim garantir meu trabalho na terra da rainha.


Durante 8 meses eu servi o café americano (com muita água), o macchiato (só com a espuminha do leite), o cappuccino e o expresso duplo. Por muitas vezes eu mesma fiz esses cafés pra mim e adocei com diferentes tipos de açúcar: mascavo, refinado, grosso e com especiarias.


Voltei para o Brasil uma verdadeira entendedora de café. Apreciadora, nem tanto. Nesse retorno, descobri que na casa dos meus pais o café não era mais coado, era de cápsula. A era das máquinas caseiras, de diferentes sabores, de diferentes grãos de diferentes marcas e modalidades.


Esse café eu gostei. Com o café de cápsula eu me entendi. Descobri que, nesse tempo todo, minha aversão ao café era porque eu gostava de forte, encorpado. O café coado não me dava isso, o de cápsula sim! Gostava e bebia diariamente.


Agora, sim. Eu gosto de café.


Inclusive comprei uma máquina pra minha casa, lotei os armários de cápsulas e assim que acordava, me presenteava com um. O adoçante mudou, claro. Descobri outros melhores. Mas o café era minha única companhia nesse momento, já que passei a morar sozinha.


Eu sentia orgulho da minha máquina. Qualquer pessoa que chegava em casa, eu oferecia: quer um café? Eu tinha café em casa. Quão adulta eu era?

Meu mundo caiu quando eu fui passar com um nutricionista. Fiz os exames, as medições, a leitura de vitaminas para ter minha dieta balanceada com vitaminas e proteínas necessárias. Ali estava descrito que o café de máquina não faria mais parte da minha vida.


Como assim? Demorei anos pra descobrir que eu gostava de café e agora me tiram o café?


Sim. Se quisesse beber café, que fosse um pó manipulado, natural, com óleo de coco e descafeinado. Recebi o café em casa, da farmácia, dentro de um pote branco com uma colher dosadora. Eu passei a ter uma dose permitida diária.


Não era o ideal na minha cabeça, mas gostei. Aceitei, incorporei e esse é meu café de hoje. Do dia. Tenho a máquina e as cápsulas em casa para o caso de receber uma visita. Gosto ainda do café de máquina, mas o café manipulado é o perfeito pra mim.


Eu gosto desse café, mas não sabia porque não conhecia. Tive a oportunidade de descobrir qual é o café que eu aprecio e qual café serve pra mim, aquele que me faz melhor.


Com o amor foi a mesma coisa. Durante meus 35 anos eu colecionei relacionamentos, sucessos e fracassos até descobrir o que realmente eu queria e o que não queria do amor e de que forma ele me faria bem. Não era aceitar, era descobrir.


Eu descobri meu gosto por café porque a cada momento eu tinha uma nova experiência que me dava a oportunidade de vivenciar os novos sabores e concretizar o meu paladar.


Foi exatamente assim com a ideia de amar. Eu me deixei levar pelo momento, pelo que cabia naquele momento, antes mesmo de saber o que eu desejava ou que se encaixava pra mim.


Com o café, é sempre hora de provar novos sabores. Com o amor, não. Você precisa descobrir quem é, o que quer e o que espera de um relacionamento para não passar a vida bebendo café coado sem ao menos gostar do grão moído e torrado.

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Conheça a autora

A espontaneidade sempre foi seu guia e a ideia de mostrar grandes comunicadores em papeis mais soltos foi seu maior diferencial durante a trajetória como repórter de tv. Ao lado de grandes apresentadores, Malu Simões teve a oportunidade de mostrar sua irreverência e construir conteúdos diferentes para as mídias digitais.

 

 

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