• Malu Simões

Lady Di era a nossa chance de realizar o sonho do "príncipe encantando"


Lady Di. Crédito: Reprodução.

Venho há tempos pensando sobre a nossa fixação pela Lady Di, mesmo após 24 anos de sua morte. Eu tinha apenas 12 anos e lembro bem de toda a comoção envolvendo aquele trágico acontecimento, apesar de ainda não entender muito bem todos os entrelaces das relações na monarquia britânica e, ainda mais, os enredos amorosos que levaram a história por esse caminho.


Anos depois, já jornalista formada e atuante em uma emissora de televisão, realizei uma matéria sobre o movimento monárquico no Brasil. Entrevistei Dom Luiz de Orleans e Bragança e foi aí que comecei a ler, ler intensamente, incessantemente, a me interessar e buscar fontes de conhecimento e inspiração. Em 2012, me mudei para Londres e acompanhei o Jubileu de 60 anos de reinado da Rainha Elizabeth II. Estava bebendo da fonte e fiz uma verdadeira imersão pela vida de Lady Di.


Registros pessoais do meu Instagram em 2012, no Kensington Palace.


Não era à toa que meu lugar predileto se tornaria os jardins do Kensington Palace, antiga residência de Lady Di e atual moradia de Willian e Kate, onde devorei todas as biografias possíveis sobre a princesa. Agora, em 2021, toda essa memória se faz viva com a mais recente temporada de “The Crown”, lançada em novembro de 2020 e que retrata a entrada da Princesa Diana para a Família Real.


E vem a pergunta do “por que até hoje somos afetados pelas imagens e história de Lady Di?”. Eu me arrisco a responder. Diana era uma menina, assim como nós fomos, criada para esperar pelo seu grande amor. Quantas de nós cresceram imaginando tendo a vida de nossos pais, como um casal, formando família e fantasiando o tal do “felizes para sempre”?

Lady Di em 29 de julho de 1981, no dia de seu casamento com o Príncipe Charles. Crédito: Reprodução.

Lady Di estava prestes a realizar o nosso sonho: foi resgatada, dentro de sua casa, para viver um amor de cinema. Mas ela ainda tinha a cereja do bolo: o príncipe, assim como nos contos de fadas. Jovem, ela acreditava fielmente nesse roteiro e foi o grande personagem de sua época, estampando jornais, revistas e reportagens de televisão, com sua vulnerabilidade de mulher apaixonada. Nós nos apaixonamos juntas!


Mas o que vimos, se tornou praticamente aquele meme: início de um sonho/ deu tudo errado. O príncipe estava mais para sapo e seu conto de fadas se transformou em pesadelo. Falta de amor, de companheirismo, lealdade e, principalmente, fidelidade. Toda aquela tristeza que eu senti lendo seus dias de “mulher casada” e “princesa da mídia” é possível sentir revendo as imagens reais, reproduzidas dignamente na série da NETFLIX.


Lady Di representada por Emma Corrin em "The Crown" na NETFLIX. Reprodução: Divulgação.

O olhar baixo, a timidez, o sorriso escondido no canto da boca. Tudo isso fazia parte da decepção dela como mulher e esposa e que logo se tornou a nossa. Nós esperávamos viver uma linda história de amor, de mãos cruzadas, de juras eternas, de conexão pessoal e espiritual. O que vivemos através de Lady Di foi a decepção de depositar nossa capacidade de amar e doar em alguém que não tem a mesma reciprocidade e sentimento genuíno.

Lady Di e seu sorriso tímido em muitas de suas aparições ao lado do príncipe. Crédito: Reprodução.

Se, em nossas vidas reais, é turbulento enfrentar a desilusão amorosa, imagine lidar com isso diante do mundo inteiro, que ainda apostava na união eterna entre príncipe e princesa? Nós também fomos traídas e enganadas por ter acreditado nessa fantasia. Nós sabemos o que é essa dor e, por isso, temos tanta empatia por Lady Di.


A dor do amor não mata, mas transforma. Ela amou seu marido e a esperança do que teria com ele.


Demorou um tempo, mas a força dessa transformação veio e, mais uma vez, tudo foi registrado e televisionado. Antes de ser Lady Di, ela era mulher e, para o mundo ver, seu cabelo mudou, suas roupas mudaram, seu sorriso aumentou – exatamente como a gente faz no fim de um relacionamento, acreditando que o que se vê precisa fazer parte dessa mudança.

Lady Di após a separação com o look que ficou conhecido como o "vestido da vingança". Crédito: Reprodução.

Mas a radicalidade desse comportamento foi muito mais profunda e, assim como ela, a cada fim de um relacionamento, a gente busca o amor próprio. E ele vem, assim como a maturidade. Vimos e acompanhamos Lady Di virar mulher depois de todo o sofrimento abafado. Ela floreceu, transbordou, achou sua identidade e apareceu para o mundo.


Não mais como uma princesa que tinha um príncipe. Mas como uma mulher que achou a si mesma sem precisar de ninguém.


A volta por cima foi a nossa vingança interna. Estávamos lá também, com Lady Di, sentindo o mesmo “renascimento” que ela. Nós nos identificamos, nós nos vemos passando por tudo isso, nós também compramos toda a desilusão do maior conto de fadas que já existiu e que nunca aconteceu.


Por vários instantes, todas nós já fomos Lady Di. Essa identificação é o que faz a história dela se propagar até hoje.


Ela virou princesa antes de virar mulher. Mas a vida a levou para outras descobertas. O crescimento acontece a partir de nossas experiências. Diana mostrou isso ao mundo.


Ela encontrou sua autoconfiança, seu brilho próprio, seu poder de magnetismo e a possibilidade de viver outras grandes amores. Cheia e dona de si. Foi lindo de acompanhar!

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Conheça a autora

A espontaneidade sempre foi seu guia e a ideia de mostrar grandes comunicadores em papeis mais soltos foi seu maior diferencial durante a trajetória como repórter de tv. Ao lado de grandes apresentadores, Malu Simões teve a oportunidade de mostrar sua irreverência e construir conteúdos diferentes para as mídias digitais.

 

 

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